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“[É] preciso massificar, e muito, o ensino superior. História e herança não mudam, mas o nível de escolaridade traz alterações de consequências bastante profundas para qualquer sociedade. Entre elas, a consolidação da democracia.”
(Almeida, Carlos Alberto, A Cabeça do Brasileiro, Record, 2007)

 

O pitoresco trabalho cujas últimas linhas cito acima apresenta a excruciante descoberta feita por um intelectual da elite esquerdista brasileira (nada mais, nada menos que o autor do livro “Por que Lula?”!) de que o povo brasileiro é fundamentalmente conservador. Creio ser desnecessário lembrar que “democracia”, no vocabulário da extrema-esquerda, tem mais a ver com a Coreia do Norte que com Atenas. Mas a solução para o “problema” do conservadorismo do povão, aos olhos do autor, é a dada acima. Está erradíssimo, mas e daí? O que importa é que o Molusco-em-chefe da extrema-esquerda brasuca felizmente acreditou nele, provando mais uma vez a importância prática de estudar um pouco de lógica para entender a diferença entre correlação e causalidade antes de sair falando e fazendo besteira no mundo real.

Afinal, no Brasil o tal “curso superior” sempre teve por fim primeiro servir de nota pela qual se perceberia o pertencimento do portador de canudo à classe média urbana. A criação da tal prisão especial, por exemplo, tinha como objetivo primeiro impedir que um janotinha de mãozinhas lisas fosse preso e regularmente espancado junto aos rudes e calejados membros dos estamentos inferiores. O precioso canudo, todavia, não era trazido pela cegonha na fralda do bebê: era a cumulação de um longo processo de formação duma elite de mentalidade muito mais moderna que a população geral. Das primeiras letras ao vestibular, até o fim do século passado, os caminhos da classe média urbana – que por sua formação moderna tornou-se o eleitorado ideológico da extrema-esquerda brasileira – praticamente nunca se cruzavam com os dos membros dos estamentos inferiores. Era perfeitamente possível a um membro da classe média passar a vida sem jamais trocar palavras com qualquer pessoa de estamento inferior que não estivesse uniformizada e a serviço do bacana em tela.

O resultado é que o mundo (de fantasia) da classe média urbana tinha pouquíssimos pontos em comum com aquele em que viviam os mais pobres. Basta ver, por exemplo, o que ocorreu quando os militares passaram a tratar os esquerdistas de classe média que roubavam bancos exatamente como sempre haviam sido tratados os ladrões mais pobres: são os famosos “porões da Ditadura”. O horror, todavia, não vinha do fato de a polícia torturar suspeitos, pois isso ela sempre fizera. A diferença é que, pela primeira vez, ela torturava gente “com diploma superior”, gente de classe média, filhos d’algo, gente distinta. Não deixa de ser uma espécie de democratização, ainda que do mal.

Este mundo fechado, todavia, não começava na faculdade. Começava muito antes, nas escolas chiques, continuava nos jornais que só a classe média lia, perpetuava-se nas relações com iguais e com subordinados, e criava ao fim e ao cabo uma bolha inexpugnável cujos habitantes só tratavam do resto da população para lamentar sua “selvageria”. Quem os ouvia poderia ser perdoado se achasse que ouvia colonos ingleses na África, ou coisa parecida. Afinal, a distância mental entre aquela burguesia urbana influente e o resto da população era tão permanente que as relações assemelhavam-se mais a relações coloniais que a qualquer outra coisa. Daí o famoso “você sabe com quem está falando?”, com que membros do estamento dominante sempre afirmaram a sua posição de superioridade em relação à gentinha que viesse a incomodá-los (como, por exemplo, um vulgar guarda de trânsito). A diferença entre estamentos era perfeitamente visível a olho nu, e raro seria o brasileiro pouquinha coisa mais velho que não pudesse identificar de longe, pelo modo de se portar, pelas roupas, pelo olhar mesmo, a que estamento pertencia alguém.

Mas eis que para alegria geral da nação a extrema-esquerda, ao conquistar o governo (“não o poder”, como sublinhou José Dirceu), confundiu correlação e causalidade, exatamente como o autor de nossa epígrafe. Com o fito de criar uma multidão de esquerdistas, de gente que votasse sistematicamente na extrema-esquerda, talvez mesmo ideológica ao ponto de fazer uso do famigerado voto de legenda, Lula passou a criar “universidades” no atacado. Algumas foram criadas sem que sequer houvesse prédios, com os alunos e professores enfiados em contêineres de metal. Outras – talvez para garantir ainda mais o esquerdismo dos formados – foram feitas em conjunto com as ditaduras esquerdistas da região. E todas, absolutamente todas, serviram para diminuir ainda mais tanto a qualidade quanto o valor de mercado dos tais estudos supostamente superiores. Afinal, se já era péssimo o resultado didático das faculdades anteriormente presentes, cujos vestibulares garantiam que aceitassem basicamente apenas alunos oriundos de “boas” escolas (logo burgueses, logo de esquerda), ao multiplicá-las o nível só poderia cair.

Foi (e é) algo semelhante àquelas medalhas que alguns dão a quem participe numa dada competição: um falso sinal. Enquanto uma medalha de ouro, prata ou bronze assinalaria uma vitória, uma medalha “de participação”, por mais parecida que seja com as de verdade (mais ainda: na razão direta de sua semelhança!) só serve para diminuir o valor das premiações reais. Subitamente, graças à canetada do eneadáctilo apedeuta, um certificado de classe média, ops, diploma de faculdade passou a ser um sonho possível aos filhos de gente pobre. As novas universidades abriram as portas a gente que passou mais ou menos ilesa por doze anos de escolas públicas, em que o Estado finge que paga professores que fingem que ensinam alunos que fingem que aprendem. Em outras palavras, abriram-se as portas da Academia a gente que não passou pela lavagem cerebral moderna tão eficazmente proporcionada nas escolas chiques. Gente que tem basicamente o mesmo senso moral dos pais e dos avós. Gente, em suma, que nunca tivera contato com o mundo de fantasia da classe média esquerdista das capitais, vindo a encontrá-lo apenas ao adentrar os recintos universitários. Tarde demais para que ele possa fazer-lhes a cabeça, no caso da maioria.

Junto com o diploma, Lula deu-lhes a possibilidade de comprar celulares a crédito, e estes abriram-lhes as portas a conversações com gente em situação parecida por toda parte do país. Grupos de trocas de livros em formato eletrônico, a que logo somaram-se grupos virtuais de estudo, rapidamente dando surgimento a cursos virtuais em grande parte melhores que as aulas na  faculdade, fizeram com que os interesses intelectuais de toda uma geração cujos pais e avós mal puderam aprender a ler e escrever passassem a poder desenvolver-se. E o sentido deste desenvolvimento, mais ainda por ocorrer fora do quadro estritamente controlado da educação formal a que seus antecessores nos bancos acadêmicos haviam sido submetidos desde criança, pouco tem a ver com os sonhos lulescos de criar esquerdistas em série.

Ao contrário, até: percebendo-se como sujeitos de suas próprias ações e direitos, os membros dos estamentos inferiores da sociedade passaram a dizer em voz alta o que pensam, e o conservadorismo parou de ser um tabu social. Afinal, era tabu por ser a voz dos pobres (logo ignorantes, ou mesmo burros, segundo a esquerda), mas desta vez não havia mais como varrê-lo (ou, antes, mandar alguma senhora pobre e silenciosamente conservadora varrer: a vassoura machuca as mãozinhas da elite!) para baixo do tapete. É a voz duma maioria, duma massa crítica de novos alunos que – horror dos horrores! – não foram submetidos à devida lavagem cerebral antes de adentrar os magníficos corredores institucionais, ressoando claramente pela primeira vez em ambientes dominados pela extrema-esquerda de estamento superior ao seu, tanto nas universidades propriamente ditas como em lugares de convívio virtual. A própria aparência desse pessoal mudou tremendamente, ao ponto de ser hoje em grande medida indistinguível a olho nu a diferença entre alguém que tenha chegado agora à classe média e alguém cuja família sempre esteve em seus limiares financeiramente inferiores.

Chega a ser curioso como é comum que se veja em algumas datas festivas as redes sociais encherem-se de belíssimas fotos de mocinhas com toda cara de classe média, formadas ou formando-se nisto ou naquilo, carinhosamente abraçadas a casais de idosos pobres, seus pais ou avôs. Eles podem facilmente ser percebidos como pobres. Eles seriam indubitavelmente dirigidos ao elevador de serviço no século passado. Já a feliz mocinha, primeira diplomada da família, não. Ela pode ter pouco dinheiro, talvez até menos que seus pais. Mas vivemos numa sociedade estamental, não de classe, e sempre foi possível fazer parte da classe média ganhando menos que algumas pessoas de estamento mais baixo. Um funcionário público de baixo escalão, por exemplo, sempre ganhou menos que um excelente marceneiro, mas o porteiro dum prédio de “bacanas” num bairro chique duma capital nem piscaria antes de mandar este pro elevador de serviço e aquele pro social.

O resultado prático da monumental burrada do Lula, o “proletário de estimação” (que nunca pisou numa faculdade como aluno, aliás) da extrema-esquerda, foi a criação duma massa crítica de gente conservadora que – ao contrário de seus pais – tem direito de voz em nossa sociedade. Seus pais nunca poderiam abrir a boca para discordar dum bacana, e se o fizessem seriam ignorados. Já os netos portadores de canudos, as mocinhas de aparência discretamente sofisticada, com unhas pintadas e maquiagem bem-feita, são simplesmente indistinguíveis daqueles que no século passado jamais reconheceriam sua humanidade, que dirá seu direito a voz!

Assim foi em enorme medida desfeito um trabalho de décadas em que a extrema-esquerda, aproveitando-se da crassa imbecilidade do “gênio da raça” Gen. Golbery, conseguiu infiltrar e dominar todo o sistema educacional. É claro que a maior parte dos professores titulares ainda é de extrema esquerda, ao menos nas áreas que mais interessam aos ideólogos controlar. Mas os primeiros pobres – logo conservadores – a transpor as portas das universidades brasileiras já estão com seus diplomas de doutorado, e são já a maioria dos neo-doutores em algumas áreas. A extrema-esquerda ainda domina o sistema de admissão de professores, cujos concursos têm cartas tão marcadas que há mais marcação que carta, mas muitos desses jovens doutores tiveram o bom-senso de apenas sorrir e acenar ao ouvir sandices, em vez de bater de frente, fazendo com que possam revelar-se conservadores apenas após findo o estágio probatório.

Foi assim, então, que Lula, esse improvável Papai Noel do conservadorismo tupiniquim, conseguiu desfazer a maior conquista da extrema-esquerda. Para melhorar ainda mais as coisas, fez ainda com que pela primeira vez na História pátria as imbecilidades modernas abraçadas pelas elites desde que os primeiros filhos de coronéis foram estudar em Coimbra passassem a ter quem as refute. Adoçando-nos a boca, diluiu ainda o núcleo duro ideológico da extrema-esquerda, as classes médias urbanas, ao adicionar-lhe farta medida de conservadores jovens, inteligentes e decididos. E, finalmente, preparou tudo para que em poucas gerações a Academia espelhe melhor a mesma cultura brasileira conservadora que os eleitores do PT tanto odeiam e tanto querem ignorar ou “curar”. É um processo sem volta, que conseguiu basicamente eliminar o futuro político da extrema-esquerda no Brasil. É por isso que, neste ponto, sou forçado a agradecer-lhe: sem o Lula, até hoje o conservadorismo brasileiro (essa “coisa de pobre”) estaria sem voz e sem presença, abafado pela loucura ideológica do estamento superior.