fbpx

Aristóteles disse que “o homem é um animal naturalmente social”. Sabemo-lo todos, até por ser tão fácil perceber que isso de viver como eremita é coisa raríssima e quase impossível. Na verdade plenamente impossível, porque mesmo os eremitas, a seu modo, inserem-se na sociedade de onde lhes chegam doações de comida, ou mesmo onde fazem negócio para comprá-la (os Padres do Deserto, por exemplo, fabricavam cestos para vender. Para um marxista, seriam burgueses!). Mas fica a dúvida: o que significa, realmente, isso de ser “naturalmente social”? E, mais ainda, o que é que move esta socialização?

Diria eu que para que possamos distinguir entre o modo humano de ser social e, digamos, o modo das formigas ou abelhas, é preciso ir a essa origem e, mais ainda, a essa causa. Proponho, então, outra tradução do dito do Filósofo: o homem é um bicho que cuida. Mais ainda: o homem é um bicho que ama, e por isto cuida. Aristóteles parou a sua busca da causa dessa socialização no que a expressa, não no que a forma, ao traçar como diferença específica o fato de o homem – ao contrário das abelhas – ser capaz de falar. Mas de que adiantaria falar, se não tivéssemos algo a dizer? E, mais ainda, o que é que tanto queremos dizer?

Ouso, então, ir mais longe, e pular de Aristóteles para Louis Armstrong: “vejo amigos dando um aperto de mão e dizendo ‘como vai?’; na verdade eles estão dizendo ‘eu te amo’”. Eu te amo é a frase mais humana possível, e uma das formas em que o homem foi criado “à imagem e semelhança” de Deus, que é, Ele mesmo, Amor. E se Deus é amor, o amor é Deus; é este amor que nos leva a falar tantas e tantas coisas que, no fim, como cantava Satchmo, acabam sendo formas diferentes de se declarar o amor.

Nestes nossos tempos, tristemente, banalizou-se tremendamente o termo amor. Do mero desejo sexual à mais feia cobiça, tudo é dito “amor”. Mas talvez seja justamente a centralidade do amor na vida e na própria expressão do que é ser-se humano que torna possível tal banalização. Sem amor não apenas não seríamos sociais, mas não seríamos humanos. Um ato desprovido de amor é, com justiça, dito “desumano”. E, ao contrário, até mesmo o mais básico, o mais elementar ato de qualquer ser vivo – a continuação da espécie no tempo – passa, no homem, pelo amor. Enquanto os cachorros reproduzem-se por feromônios, cheiros fortes que atraem os machos à fêmea fértil; enquanto as plantas atraem pelas belas formas e cores das flores os insetos que pegarão o pólen duma e levarão a outra; enquanto outros bichos vivem separados, solitários, unindo-se apenas para uma cópula frenética e desprovida de razão que não uma urgência biológica, o homem reproduz-se pelo amor.

É o amor dum rapaz por uma moça, e da moça pelo rapaz, que ao ser expresso no ato conjugal leva à criação duma nova vida. E esta nova vida está longe de chegar pronta, aliás. Uma cadela esquece que seu filhote nasceu dela assim que ele desmama, dois ou três meses depois de nascido. Um potrinho nasce e sai galopando. Já o homem nasce muito antes de tal grau de independência. Um bebê recém-nascido é absolutamente dependente, e mesmo uma criança da mesma idade que um cachorro que já se reproduz é incapaz até mesmo de equilibrar-se de pé. Que dirá de andar. Que dirá de ser um membro produtivo da sociedade, como são produtivas as formigas e as abelhas em sua inumana agregação pseudossocial.

O que é, então, necessário a essa criança ao longo de um tempo que, em comparação com praticamente qualquer outro bicho, é gigantesco? Ora, o que lhe é essencial é que ela seja cuidada. E seus pais cuidarão dela por uma razão simplíssima: amor. Eles amam seu neném, e esse neném é uma vidinha que surgiu como expressão máximo do amor entre os dois. Amor e cuidado estão completamente interligados no homem, de tal maneira que seria praticamente impossível conceber uma forma de separar um do outro. Quem ama cuida, e o ideal é que sempre ame quem cuida. Sendo o homem capaz de razão, é-nos possível cuidar sem amar. Será, todavia, sempre um sucedâneo do real cuidado, de qualidade inferior. Um idoso sendo cuidado por pessoas pagas para isso jamais será tão bem cuidado quanto aquele que é cuidado por quem o ama. E mesmo esses cuidadores cuidarão dele para levar dinheiro para casa, possibilitando-lhes cuidar de quem eles realmente amam.

O natural, todavia, o que se encaixa naquela definição inicial do Estagirita, é que haja cuidado amoroso; todos os demais são contrafações, quebra-galhos, gambiarras que meramente imitam o cuidado amoroso. Dentro desta nossa tão evidentemente bipartida espécie, é claro que o cuidado dado pelo macho difere muito do cuidado ministrado pela fêmea. Um completa o outro, e os dois juntos é que podem nos dar a medida do que é o ser humano. A forma desses cuidados é expressa até mesmo no formato físico de cada sexo. O homem tem força na parte de cima do corpo: é uma força que se projeta, como se projeta também a própria genitália na hora da relação conjugal. A mulher, por outro lado, tem força na parte de baixo do corpo, o que faz de sua força uma força de quem carrega, como também carrega ela na barriga por nove meses o neném, como também carrega ela no seio a criança, que se alimenta de algo que seu próprio corpo produz. E, claro, a projeção masculina insere-se no “berço” em que o bebê produzido pela união amorosa do casal crescerá durante aqueles nove meses.

É comum que se diga que a mulher é que tem vocação de cuidadora. É um erro; cada sexo cuida do seu jeito, e com os dois juntos é que pode e deve haver o cuidado pleno. A mulher cuida “para dentro”, e o homem “para fora”. A mulher acolhe, abraça e alimenta, enquanto o homem defende e vai buscar o que for necessário para aqueles que ele ama. Nem que para isso ele tenha que matar um leão. Ou enfiar-se numa caravela e descobrir o Novo Mundo. Numa representação mais gráfica, teríamos a vidinha do neném que surge do amor no centro; virada para ele, tendo olhos quase que só para ele, está a mulher, com seus seios que o alimentam, com seu sorriso que o alegra, e sua voz que o embala. Amorosamente encostando suas costas nas da mulher que ama, vemos o homem, olhando desconfiado e cuidadoso para todos os lados e cuidando de eliminar qualquer ameaça potencial àquelas duas pessoinhas que, para ele, resumem todo o amor do mundo. Logo, toda humanidade do mundo. Logo, todo o mundo.

É por isto, até, que o homem tem uma capacidade muito maior que a mulher de perdão daquilo que um dia foi uma ameaça, mas deixou de sê-lo: é ele quem lida com as ameaças externas. É ele quem tem a capacidade de desferir um murro, atirar uma pedra ou, de qualquer outra maneira, botar para correr quem ameaçou os seus. A mulher, nisto de defesa ativa, é uma linha de reserva; a ameaça que chegar a ela é uma ameaça que já cometeu o crime imperdoável de vencer a barreira masculina. Uma ameaça tão grande que jamais poderá deixar de ser considerada séria. Daí a tendência da mulher de – por amor, por cuidado, por cuidado amoroso – recusar-se a perdoar. O homem que agisse assim acabaria sendo um destruidor, um monstro antissocial e, em última instância, um mau cuidador; afinal, a maior parte das ameaças vai-se embora ou revela-se uma falsa ameaça ao deparar-se com ele e com aquela força voltada para fora de que ele dispõe.

E assim nascemos sendo cuidados, amorosamente e pelo mais puro amor (pois só o amor mais sublime faz com que a mãe acorde a cada três horas para dar de mamar ao bebê!). Vamos crescendo e aprendendo – cada sexo ao seu modo e dentro de cada sexo cada pessoa de acordo com seus talentos e inclinações – a reciprocar o amor. A cuidar de volta de quem cuida de nós. O bebê passa a espaçar suas mamadas, a criança procura não entristecer seus pais: são cuidados amorosos. Num piscar de olhos, assim que aquela criança chega à idade em que já não carece tanto de ser cuidada – a idade em que um cachorro morre!, que é a idade em que uma pessoa chega àquela etapa que o totó alcança no tempo que a criança leva para aprender a engatinhar… –, ela subitamente deixa de ser criança e passa a buscar alguém para cuidar. Alguém que cuide dela. O rapaz subitamente percebe que as meninas – que achava bobas, chatas e feias – são a coisa mais linda que existe, e dentre elas escolhe uma de quem ele quer cuidar, pelo resto da vida, com enlevo amoroso. Seus planos, todavia, não valem muita coisa. Afinal, quem escolhe não é ele, mas ela. A moça, na mesma fase da vida, procura quem cuide dela e de quem ela cuide. Os rapazes multiplicam-se, e apaixonados rodeiam o “entreaberto botão, entrefechada rosa” que é a mocinha, e dentre tantos ela escolhe um. E com esta escolha ela parte o coração dos outros. Esta, aliás, é uma cruel realidade: é impossível que uma bela mocinha não deixe um rastro de corações partidos a marcar o percurso de sua nubilidade.

Mas, tendo ela feito a escolha, passa a cuidar do felizardo rapaz, e o rapaz dela. E este amor, por sua vez, como vimos mais acima e como viemos ao mundo, há de gerar uma nova vida, de que ambos cuidarão enquanto cuidam um do outro. Já os pais do jovem casal, que cuidaram deles, aos poucos vão passando – depois de brevíssima pausa durante a qual podem ser avós ativos dum bebê pequeno – à condição de objeto de cuidados dos filhos já crescidos. As avós cuidam dos netinhos, e os avôs maravilham-se com a perfeição daqueles serezinhos. Mas, como na piada em que a mãe diz à filhinha enquanto lhe troca as fraldas que um dia a menina trocará as da mãe, o cuidado das crianças do jovem casal é a antessala do cuidado dos próprios pais na segunda infância que é a senescência.
Ou seja: toda a sucessão das gerações, toda a perpetuação da espécie humana, ao contrário do que se passa com praticamente qualquer outro ser vivo, é um entrelaçamento vital de relações amorosas e de cuidado mútuo. O cuidador torna-se cuidado, e o cuidado torna-se cuidador. O amor torna-se vida de que se cuida, e essa mesma vida em breve, tão breve – pois nosso tempo neste mundo é curtíssimo – há de ser o alento dos pais, o cuidador de quem dela cuidou.
Mas o que é, afinal, este amor de que eu tanto falo?

Há quem caia nas armadilhas mais crassas, e reduza o amor a besteiras como o desejo sexual. Outros, mais românticos (no pior sentido do termo) enganam-se vendo o amor como uma emoção. Tudo isso é falso: a verdade é que o amor é entrega. Entrega completa de si, entrega como a que faz com que a mulher carregue um barrigão por longos meses para em seguida, extasiada e felicíssima com a maravilha, o milagre daquela vidinha que veio de dentro dela e dela se alimenta, acorde várias vezes por noite para dar de mamar. Entrega como a do rapaz que “toma jeito” e trabalha sério, constrói uma casinha para proteger as pessoinhas de quem cuida e passa assim a ser plenamente parte da sociedade em que vivemos todos.

Costumo dizer que quando temos filhos tornamo-nos sócios-atletas da sociedade. O que antes nos era indiferente (como estará esta cidade, ou este bairro, daqui a cinquenta anos?) passa a ser crucial. Afinal, daqui a cinquenta anos este será o lugar em que viverá aquela pessoinha que surgiu do nosso amor-entrega, aquele serzinho a quem nos entregamos por completo. Daí a naturalidade do ser humano como animal social. Ao contrário da abelha, que depende diretamente da colmeia e dá a vida por ela, sendo e vendo-se como perfeitamente intercambiável por qualquer outra abelha da mesma categoria na colmeia, a relação entre o ser humano e a sociedade é intermediada. Seria absurdo para qualquer pessoa de bom senso colocar a sociedade em que vive acima daquelas pessoas a quem se entregou (ou seja: que ama) e por isto mesmo cuida. Muito antes de ser cidadão daqui ou dali somos filhos de nossos pais, de quem já estamos a cuidar por estarem eles avançando em anos, e pais de nossos filhos, de quem jamais deixaremos de cuidar. Para cuidar deles e por cuidar deles é que fazemos parte da sociedade. A fala, retornando a Aristóteles, serve apenas para pintar de cores diversas nossas declarações de amor.

Daí a antinaturalidade das pseudossoluções institucionais, como creches, asilos e criações comunitárias de crianças, à moda de Esparta ou do kibutz israelense mais utópico. Da perversão da percepção de sociedade na nefanda teoria de Hillary Clinton de que “é necessária uma aldeia” para a criação das crianças, como se a aldeia fosse o sujeito dessa criação e não sua consequência. Como se pudessem ser postos no mesmo patamar o cuidado que é amor, que é entrega perfeita, que jamais cogitaria em dar a própria vida em prol de quem se ama, e o cuidado mercenário do funcionário de asilo ou de creche, do juiz de menores ou do conselheiro tutelar. A sociedade é uma extensão da família; é uma extensão mais rala, mais rarefeita, daquela rede de entregas amorosas mútuas que se manifestam como cuidado. É consequência, não causa.

O núcleo, o cerne, a base de toda sociedade só pode ser a relação amorosa original, e esta ocorre pela entrega incondicional de que só é capaz quem verdadeiramente ama. Não pela cidadania, não pelos impostos, e menos ainda pelo dinheiro. Qualquer tentativa de construir uma sociedade sobre outras bases nega a natureza humana e está fadada ao fracasso total desde que surge pela primeira vez na cabeça dalgum utopista. A sociedade é fruto da família, fruto do amor. O mercado, tão endeusado por alguns, é ainda mais secundário; compramos por amar, por cuidar. O que dá valor à mercadoria é o sorriso de quem a recebe do comprador. Seja o frango assado de domingo, o brinquedo da criança, o carro ou a roupa, nada teria qualquer valor se não fosse capaz de servir de instrumento para que o rapaz receba o sorriso da moça ou a moça receba o olhar maravilhado do rapaz.

É por isto que digo que é o sorriso feminino que constrói a sociedade, na medida em que é predominantemente masculina a ação externa, a ação que se projeta para fora daquela redezinha tão forte, tão indestrutível, de entregas amorosas mútuas que é o núcleo familiar. Há gente tão fora da realidade que propõe cotas para mulheres em cargos públicos, afirmando que elas estão sub-representadas, quando na verdade a imensa maioria delas tem é coisa bem melhor para fazer. O homem é que se mete, amalucado pelo amor e tresloucado pela testosterona, a construir pontes altíssimas, a enfrentar feras selvagens, a defender de inimigos a sociedade a que pertence. Mas ele não é movido pelo ódio ao inimigo, sim pelo amor a quem está por trás dele. Como na analogia gráfica que fiz acima, o amor do homem e da mulher existe, socialmente falando, com as costas dele coladas às dela. A menor unidade social existente é o núcleo de amor, entrega e cuidado que compõe esta primeira rede de relações. Não é nem jamais poderia ser a pessoa solitária, mesmo porque esta é uma ficção, um ente de razão. Todo ser humano é naturalmente social, na exata medida em que todo ser humano é naturalmente amoroso, naturalmente chamado a entregar-se plenamente e por isso a cuidar. E é pelo cuidado amoroso que participamos todos da sociedade, não por irrelevâncias triviais como leis ou eleições.

Cuidamos do meio ambiente para que nossos filhos tenham água para beber e árvores frutíferas para galgar e encher a barriguinha de vitaminas saudáveis e suadas. Ganhamos dinheiro, compramos e vendemos, para garantir que nada falte àqueles que são nossa razão de viver. Lutamos na guerra para garantir que os donos do nosso coração tenham paz.

Somos, então, humanos, e sociais, e tudo o mais, pela razão única de que amamos; só podemos ser plenamente humanos no amor. Afinal, se Deus é amor, o amor é o caminho, a verdade, e a vida.