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Com a estranhíssima posse de Biden como novo presidente americano – sem as clássicas multidões de eleitores entusiasmados, substituídos por vastíssima quantidade de soldados armados até os dentes, em número superior à soma das tropas mantidas pelos EUA no Afeganistão e Síria – acaba o bizarro interregno trumpiano. Os donos do poder estão de volta, e desta vez sem haver direito a qualquer oposição que não a consentida. Toda a grande mídia, sistema educacional e cultural, redes sociais, forças armadas, inteligência e oligarquia em geral estão unidos. Não têm apoio popular algum, mas isso não importa tanto para eles. Afinal, mesmo as milícias que quebraram tudo no país nos protestos de 2020 senso numericamente minúsculas e a adesão ideológica às propostas da oligarquia recém-retornada à frente do poder resumindo-se a uma ínfima elite branca de classe média, isso empalidece diante do poderio militar, midiático e educacional à disposição dos oligarcas para calar qualquer tentativa de oposição real.

Na prática, o que isto significa é que os EUA como experiência social maçônica de grande sucesso entraram na fase final de sua decadência. Como em toda fase final, evidentemente, uma versão alucinada da ideia original passa a ser imposta pela força, e é o que tende a acontecer agora. O puritanismo das origens dos EUA transmutou-se em um “progressismo” igualmente fanático, com causas que se sucedem tão rápido que se atropelam, mas sempre demandando a mesma obediência extrema das comunidades cívico-religiosas de seu início. Trump, neste sentido, mostrou ter consciência disso ao afirmar em carta solene enviada ao Congresso quando da votação de seu mais recente impeachment que as Bruxas de Salém tiveram mais direito a defesa que ele. Afinal, elas foram vítimas da forma original do mesmo fenômeno que em forma pós-moderna o cancelou. Ele, seus seguidores e qualquer um que em algum momento o tenha apoiado, ainda que parcialmente, são e serão tratados como foram as “bruxas”. Nenhuma penitência é suficiente, nenhum pedido de desculpas basta, pois para a mentalidade puritana o malvado nasce malvado e morre malvado, e qualquer tentativa de aproximar-se dos bons só é prova maior de sua falsidade.

Biden já assinou várias medidas revertendo as instauradas por Trump e visando solidificar o controle institucional da oligarquia que representa. Entre outras, são notáveis a inclusão dos habitantes sem cidadania no cálculo do número de representantes de cada Estado, que dará muitos deputados a mais para seu partido, e a reversão da proibição trumpiana do direcionamento de verbas federais para instituições que promovem o aborto. Esta, sem dúvida, significará que a esquerda brasileira, que sempre anda pari passu com a americana e tenta aplicar aqui todas as loucuras da original, vai receber fortunas do governo americano para aplicar aqui a última versão da loucura do puritanismo pós-moderno que acaba de conquistar todas as instituições americanas.

Ao mesmo tempo em que os EUA, envolvidos em suas questões internas, passam por este golpe de Estado que devolve o poder à oligarquia de sempre, todavia, cresce a força da China. Um Trump chinês teria recebido uma bala na nuca muito mais cedo, sendo ainda a munição cobrada da família. O próprio Jack Ma, multibilionário chinês, após criticar construtivamente alguns aspectos do sistema tributário chinês foi “desaparecido” por meses, ressurgindo apenas ontem, quando fez um breve discurso em teleconferência para uma plateia de professores rurais(!). Evidentemente, ninguém sabe de onde falou nem deu ele qualquer razão para seu desaparecimento. A China tem muito mais experiência em totalitarismo que os EUA, afinal, e lá os poderosos têm muito menos pejo em usar seu poder, e o usam antes que se crie qualquer oposição real.

O horrendo totalitarismo hipertecnológico da China, anos-luz à frente dos piores pesadelos distópicos da literatura, muitas vezes apavora o Ocidente que assiste à sua ascendência a superpotência. Este medo todo, todavia, é algo que decorre de uma falsa projeção. Afinal, temos sido vitimados pelos EUA desde pelo menos o tempo da Doutrina Monroe, no início do século retrasado. A retirada dos europeus significou, para os americanos, que a América Latina havia caído em suas mãos, e fomos especificamente categorizados como o quintal dos EUA. E, como os europeus antes deles, os americanos tinham algo específico a transmitir. Os portugueses (bem como os espanhóis para nossos vizinhos) queriam estabelecer um país católico. Afinal, os íberos são o fruto da Reconquista da Península Ibérica, que acabou de ser arrancada das mãos dos muçulmanos no mesmo ano em que Colombo chegou às Américas. Para eles, a religião não teria como não ser o cerne da própria cultura e civilização. A conquista das Américas pelos espanhóis e portugueses era primordialmente um projeto de vitória sobre o paganismo. A própria vitória de Cortez na conquista do México aos astecas deveu-se primordialmente à adesão de inúmeras tribos às suas minúsculas tropas, motivada por sua revolta por serem forçadas pelos astecas a entregar seus melhores jovens para sacrifícios humanos. Naquelas mesmas pirâmides que o pessoal “espiritualizado mas não religioso” visita em busca de “bons fluidos”, seja lá o que isso for. O fluido que mais correu por ali foi sangue de inocentes.

Aqui no Brasil, felizmente, ainda que a parca população nativa fosse em sua maioria canibal e em sua totalidade pagã, não havia tantos horrores, tão organizados. A chegada dos portugueses e, mais tarde, das pessoas escravizadas na África e vendidas por seus escravizadores aos traficantes portugueses e ingleses proporcionou-nos feliz mistura, em que é raríssimo o brasileiro que não tenha em sua árvore genealógica gente da Europa, da África e das populações autóctones do Brasil.

Em todo caso, mal saímos da órbita portuguesa (melhor dizendo, mal saiu Portugal de nossa órbita; afinal, a capital de Portugal costumava ser o Rio de Janeiro!) entramos na americana. E os americanos têm uma diferença extrema em relação a quase todos os povos: a certeza de terem um Destino Manifesto, de serem a vanguarda, a tropa de assalto do Bem no mundo. Não é à toa que o americano médio, por mais que leia a bíblia, atribua a Lincoln, não a Nosso Senhor, e creia tratar dos EUA, não da Igreja, a expressão “uma cidade construída sobre uma colina”. Tampouco é à toa que os americanos tenham o hábito de circuncidar todos os meninos, como outro povo eleito anterior. No início esse “bem” que eles querem enfiar à força goela abaixo de todos era a (per)versão americana do cristianismo, e daí eles mandarem para cá hordas de pregadores protestantes, seguidos por mórmons. Depois, passou a ser o capitalismo e o “American Way of Life”, “modo de viver americano”, de que falei mais longamente neste mesmo espaço, no artigo “Um Modelo de Pesadelo”, publicado no último dia do annus horribilis de 2020. Sem querer morar fora de seu país, sem aprender nenhuma língua estrangeira, sem se estabelecer em qualquer outro lugar, e em muitos casos sem sequer visitar, seu objetivo declarado era refazer o mundo à imagem fantasiosa duma “América – Terra da Liberdade” edificada sobre as bases instauradas pelos puritanos originais, cada vez mais distante deles nas teses mas jamais na psicologia e na prática.

A invenção do cinema e das gravações fonográficas fez com que a difusão cultural da ideologia americana se acelerasse mais e mais, e o farto dinheiro americano derramado nos bolsos dos políticos e ativistas que quisessem pregar aqui suas teses ajudou tremendamente a afastar o Brasil de sua base íbera. Seria, aliás, um excelente tema para uma tese acadêmica a investigação dos beneficiados, das causas esposadas, e dos resultados político-culturais da ação e do dinheiro da Fundação Ford ou da Rockfeller no nosso país ao longo das décadas. À medida que a sempre cambiante ideologia americana foi mudando, mudaram todos os elementos acima. O que não mudou foi o desejo – aliás a “missão” autodeclarada – americano de reconstruir o mundo à sua imagem e semelhança. E nós, aqui no “quintal” deles, evidentemente estivemos sempre entre suas maiores vítimas.

Por isto, evidentemente, a primeira coisa que passa por nossa traumatizada mente ao ouvir falar da ascensão chinesa é o horror totalitário em que vivem os habitantes do Império do Meio. Se mal e mal conseguimos passar pela difusão do American Way of Life sem que o grosso da população fosse atingido, concentrando-se as vítimas basicamente na elite das capitais, o que será de nós quando os chineses tentarem implantar aqui uma distopia semelhante à sua?! Isto, contudo, é uma projeção completamente errada. Enquanto os americanos se creem o povo eleito, com o destino manifesto de recriar o mundo à sua imagem e semelhança, os chineses têm outro tipo de alucinação coletiva, radicalmente diferente. Só para começar, ao contrário do recentíssimo experimento social maçônico americano, trata-se de um povo milenar, com uma linhagem de imperadores com origens que quase se perdem nas brumas do tempo. O cerne da cultura chinesa é – ainda que parcialmente danificado pelas décadas de comunismo puro e duro – o confucianismo. Trata-se de uma filosofia que preza acima de tudo a ordem social e o respeito aos antepassados.

Além disso, o povo chinês, também ao contrário do americano, é tremendamente homogêneo. Enquanto o núcleo duro americano é composto dos ditos WASP (os brancos, anglossaxões e protestantes), com o passar das gerações foram aceitos irlandeses, judeus, italianos e outros grupos que antes não eram considerados “brancos”, e a forma atual do puritanismo renega tais origens e inventa formas sempre cambiantes de endeusar os grupos antes alijados da sociedade WASP (pretos, latino-americanos, índios, homossexuais, etc.). Isto, para um chinês, seria impensável. Num frenesi de fanatismo comunista houve, sim, um instante de destruição do passado e de renegação dos antepassados: a Revolução Cultural, que muitos analistas chineses percebem, aliás, como sendo o momento pelo qual os americanos estão a passar. Foi breve a loucura, no entanto, e ainda que prestando nominalmente culto a Mao Tsé-Tung e afirmando-se comunista, o governo chinês atual faz o oposto, tentando o seu máximo para assimilar (inclusive com casamentos forçados e outras medidas duras) as minorias não-pertencentes à etnia majoritária han. A China é dos chineses, e os chineses falam chinês e descendem de milênios de antepassados incontáveis com a mesma cultura e pertencentes à mesma etnia. Ainda que a piada segundo a qual os chineses comprem fotos 3×4 na papelaria seja provada errada pela capacidade das câmeras de vigilância do governo de reconhecer cada cidadão a mais de um quilômetro de distância, é verdade que há uma homogeneidade na população que só é suplantada pela coreana e pela japonesa.

Chesterton famosamente disse que os EUA são o único país fundado a partir de uma ideia, não de uma nação preexistente. A China, por outro lado, é uma das nações mais antigas e mais conscientes de sua diferença. Compreensivelmente consideram-se superiores a todos os demais povos; trata-se, afinal, de um país que só não foi tremendamente poderoso, por coincidência histórica, durante o curto prazo de duração dos EUA. Consideram, todavia, dentro de seu prisma confuciano, que cada povo tem a própria personalidade, o próprio temperamento e as próprias tradições, e exatamente por isto tendem a respeitar mais quem respeite os próprios ancestrais. Por isto é que as relações entre a China e o Irã, por exemplo, são excelentes: visto por um prisma confuciano, o Irã é um país que dá valor às próprias tradições, é ordeiro, pacífico, e – a cereja do bolo – rico em petróleo.

Já os países africanos, por outro lado, são percebidos (com boa dose de razão) pelos chineses como tremendamente desorganizados e caóticos, com tribos lutando por ascendência o tempo todo e tradições abandonadas em prol do pior da degeneração ocidental. É por isto que o governo chinês não têm pejo algum em implantar enclaves chineses na África, aliás, em que os nativos sequer podem entrar. O mecanismo pelo qual eles o fazem, todavia, nada tem em comum com o método americano de bombardear até criar o caos mais completo e depois instalar um “forte apache” no meio dos destroços. Os chineses emprestam ao déspota de plantão uma fortuna a ser gasta na construção de infra-estrutura para exportação e, por exemplo, mineração (claro que com um bom percentual indo para uma conta do ditador na Suíça). A construção, evidentemente, é feita por firmas chinesas, todas pertencentes ao mesmo governo que emprestou o dinheiro. Quando, inescapavelmente, o paiseco africano não consegue pagar a dívida, os chineses, “bondosamente”, aceitam como entrada do pagamento as instalações que construíram, e assim passam a dominar diretamente a única atividade econômica de monta no território. É uma forma de colonização de exploração, sem a parte desagradável e trabalhosa de ter que manter muitas tropas, governar as áreas externas ao investimento, etc. Nestas áreas os nativos não entram, e se entrarem será como subalternos absolutos.

Em suma, não há na forma chinesa de perceber o mundo e sua relação com ele nem sombra do ímpeto “evangelizador” americano. Os chineses têm plena consciência de que os demais não são como eles. Eles respeitam quem eles consideram que se respeita, e exploram quem eles consideram incapazes. Todos são, para eles, no mínimo menos “civilizados” que os multimilenares súditos do Império do Meio, mas há graus diversos de civilização. O povo chinês é um povo de comerciantes, como o americano, mas o que tem a comprar e a vender são produtos tangíveis, não um modo de vida. Perguntem a qualquer habitante de qualquer país oriental como é a colônia chinesa em sua terra, e a resposta será a mesma: comerciantes talentosos, gente muito trabalhadora que não se mete em política, e por aí vai. Por isso, para eles o fator mais importante na prática (e como são práticos, os chineses!) é a estabilidade nas relações comerciais e a infraestrutura de exportação e importação. Se ela não existe, como na África, eles a criam para usufruto próprio por meios basicamente não-violentos. Se ela existe, como no Irã ou no Brasil, eles a aproveitam e a ampliam.

Daí o projeto mais importante para os próximos séculos, que é a Nova Rota da Seda. O nome – de forma tipicamente chinesa, aliás; chineses não esquecem – alude à rota comercial que levava seda da China para as cortes europeias séculos atrás. Sua versão atual, todavia, é muito mais sofisticada, com ferrovias de alta velocidade e capacidade ligando simultaneamente a China, a Rússia e a Europa a todo o Oriente Médio, além da construção de portos de alta capacidade, oleodutos e gasodutos possibilitando enorme movimentação de carga para os lugares que não podem ser atingidos por terra. É o projeto comercial mais ambicioso da História, e visa transformar em Eurásia o que as vastas e quase intransponíveis cadeias montanhosas fizeram com que ao longo dos séculos se tivesse sempre Europa e Ásia, cada uma dum lado. E a esta Eurásia toda unida, que se poderá atravessar por terra em um ou dois dias – enquanto na Rota da Seda original era comum que um produto levasse anos para chegar ao outro lado – estará unida por mar à Oceania, tendo ainda acesso rápido e eficiente aos vastos recursos minerais africanos.

Quando se compara isso aos delírios americanos, como por exemplo a invasão do Iraque (com razões inventadas, aliás, como as do lobo à ovelha na beira do regato da fábula) na ilusão de transformá-lo numa democracia à moda americana ou a criação do caogênico “Estado Islâmico” na Síria para roubar-lhes o petróleo, vemos que o modus operandi chinês faz muito menos mal à saúde. A razão, para um chinês, seria evidente: os chineses são um povo civilizado e interessado em comércio. Os americanos são um povo sem passado, que despreza os próprios ancestrais e age de forma selvagem, indisciplinada e, por fim, contraproducente. E seria difícil negar-lhes razão neste ponto. A comparação entre a Nova Rota da Seda e o caos completo que os EUA criaram entre povos antiquíssimos no Oriente Médio deixa isso bem claro.

E como estamos nós nessa história toda? Bom, para começar, a nossa posição geográfica, que tanto nos prejudicou quando da ascendência americana, faz com que sejamos na prática o país importante mais distante da China. A Nova Rota da Seda vai nos ajudar bastante, na medida em que a integração da Eurásia nos dará novas possibilidades comerciais. A relativa estabilidade comercial e política do Brasil também nos deixa em uma situação menos desconfortável, na medida em que ainda é possível investir no Brasil. Difícil, por certo, pois temos uma das economias mais fechadas do mundo, mas possível. É de se esperar que coisas como a compra pela China do Terminal de Contêineres de Paranaguá se tornem mais e mais comuns. Afinal, o interesse deles é real: a China já compra mais de dois terços da produção de soja brasileira, por exemplo, e se os sucessivos governos brasileiros não conseguem desentupir os caminhos da exportação, a China arregaçará as mangas para fazê-lo. Por um lado, é claro que os nacionalistas ficam horrorizados com estas notícias, e gritam em tom alarmista que “a China está comprando o Brasil”. Por outro, creio que qualquer iraquiano, líbio ou sírio morreria de inveja; os EUA não “compraram” seus países: os destruíram.

O modelo chinês, assim, tem seus prós e seus contras. O maior ponto negativo, a meu ver, é que na visão deles somos exportadores de matérias-primas, e o investimento real de muitas dezenas de bilhões de dólares da China vai todo no sentido de confirmar esta vocação. Isto é mau para o Brasil na medida em que a agroindústria emprega muito pouca gente, usa muitos produtos tóxicos e prejudica a pequena agricultura familiar. Competiria, todavia, ao Brasil, não à China, produzir produtos manufaturados competitivos para se aproveitar da infraestrutura facilitada pelos investimentos chineses e assim diversificar a carteira de exportação brasileira.

Por outro lado, enquanto tivermos um país mais ou menos pacífico, com regras mais ou menos previsíveis, estamos bem colocados para nos manter e nos inserir mais no gigantesco mercado eurasiano e da Oceania, aproveitando a infraestrutura que a China está implantando. Do mesmo modo, podemos também aproveitar os laços do Brasil com a África para colocar empresas brasileiras na periferia dos investimentos chineses naquele pobre continente. E, ao contrário do que foi o caso com os EUA, não precisamos temer que os chineses tentem implantar aqui uma Chinese Way of Life hipertotalitária: esta é uma mania exclusivamente americana.

Os EUA, em seus estertores, todavia, provavelmente tentarão implantar a ferro e fogo aqui, no que eles consideram seu “quintal”, os mais recentes delírios do dito progressismo, a forma pós-moderna do puritanismo. Teremos mais e mais campanhas antifamília, programas de distribuição de contraceptivos e outros horrores, e é mesmo provável que sejamos fortemente pressionados, ainda no mandato presidencial que se inicia (independentemente de a figura de proa ser Biden ou Harris; quem manda não é nenhum deles), a legalizar a maconha e a esterilização cirúrgica, ou mesmo o aborto. O Supremo Tribunal Federal tupiniquim, infelizmente, está nas mãos de gente que come na mão dos americanos, e seu ímpeto legiferante parece indomável.

Ninguém espere, todavia, que a China entre nessas questões, que eles percebem como internas do país. Ela nem ajudará os americanos nem os combaterá no campo cultural e político, a não ser na improvável hipótese de isso afetar o que lhe interessa, que é a eficiência comercial do Brasil na exportação e importação do que lhes interessa comprar e vender. Bolsonaro já demonstrou por atos que sua americanofilia não o impede de buscar boas relações comerciais com a China, e isto para nós é bom. Só esperemos que o seu partidarismo pró-Trump não nos atraia ainda mais pressão dos puritanos pós-modernos; podemos prever, sim, um forte aumento do financiamento da esquerda brasileira, mas só podemos esperar que fique só nisso. Afinal, não é como se a política exterior americana fosse algo racional, ao contrário da chinesa. Até mesmo uma guerra real (“cinética”, como se diz hoje) dos EUA contra a China está no campo de possibilidades, mesmo sendo completamente impossível aos EUA vencê-la. Neste caso a pressão americana poderia perturbar tremendamente nossas relações comerciais com a nova Eurásia.