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E o Eterno habita entre nós

No Natal de 1914, poucos meses depois do início da Primeira Guerra Mundial – depois chamada “guerra para acabar com todas as guerras”, tamanho o inútil morticínio – soldados ingleses e alemães fizeram, extraoficialmente, uma trégua. Foram organizados jogos de futebol, corais bilíngues improvisados cantaram cantigas folclóricas de Natal, prisioneiros foram trocados… Em suma, por um brevíssimo período reinou antes a sensatez que o delírio assassino das guerras modernas.

Hoje, 116 anos depois, comemoramos também, nesta noite, o mesmo acontecimento que levou os europeus a pousar por uns dias suas armas. É o mesmo acontecimento, diga-se de passagem, que faz com que estejamos hoje no ano 2020: há 2020 anos ocorreu o Natal que hoje ainda comemoramos e que hoje ainda é uma realidade presente em toda a Criação. Há já 2020 anos que o Verbo Se fez Carne, que a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade fez-Se homem e nasceu da barriguinha duma mocinha de quinze anos de idade, numa estrebaria, na Judeia ocupada por Roma.

O significado real de tal acontecimento é coisa tão portentosa que chega a ser difícil dar-se conta dele. O Criador tornou-Se, por vontade própria, uma Sua criatura humana. O Eterno adentrou o tempo que Ele mesmo criou e que Ele mesmo mantém em existência. O Sem-Fim teve um começo, o Todo-Poderoso tornou-Se um bebezinho em tudo dependente de sua mãezinha, e a espécie humana inteira, vivos e mortos, tornou-se conatural de seu próprio Criador. É, assim, bem mais que uma mera festa de aniversário de alguém que nasceu há 2020 anos e continua vivo (haja velinha pra soprar!); é a comemoração do momento em que cada momento passou a ter outro sentido. Do instante em que, tendo o Eterno adentrado o Tempo, o próprio Tempo tornou-se, de uma certa maneira, abrigo do Eterno. Depois daquele instante, toda vida humana passou a ser algo infinitamente maior, infinitamente mais valioso. Depois daquele instante, o que era nosso trabalho de custódios das demais criaturas tornou-se também uma forma de participação na graça divina.

E dali, então, podemos tocar o Eterno, e ao percebermos o Eterno podemos perceber que há algo mais, que há algo maior, que há algo que vai muito além das nossas efemeridades sucessivas. O que é a vida dum homem diante do Eterno? Podemos chegar à avançadíssima idade de 120 anos, e mesmo assim nossa vida nada seria diante da infinitude que é a eternidade. Até mesmo em comparação com outras criaturas nossa vida é um instante. Podemos falar, claro, dos tubarões ou tartarugas com centenas de anos de idade. Mas podemos, mais ainda, falar, por exemplo, das placas continentais, navegando a superfície de nosso planetinha azul desde uma data tão remota que nos é inimaginável.

Na Europa, com as sucessões de civilizações tendo deixado uma que outra marca enterrada, é comum que se encontrem edifícios de quatrocentos anos de idade construídos sobre a fundação de outro de mil anos, por sua vez ocupando o lugar dum que fora erigido ainda antes do Ano Um, e de outros sinais mais e mais remotos. Há até mesmo cadáveres multimilenares que se nos apresentam para que saibamos quem morava ali naquele cantinho específico tanto tempo atrás. E com isto, só com isto, mesmo sem chegarmos à noção de eternidade, já podemos ver a desimportância absoluta das disputas de fronteiras ou mesmo das brigas de herança. A terra onde vivo e que me pertence por lei (o que na prática faz de mim seu custódio, muito mais que seu “dono” ou mestre) já foi a terra de outro, e de outro, e de outro, recuando milhares de anos. Cada um deles tinha carinho pelas curvas das colinas que cercam esta grota, e cada um deles apreciava as árvores que datavam, sei lá, do tempo de seus avós. Mesmo as árvores nascem, crescem e morrem no tempo, e poucas são as espécies que realmente perduram mais que um século. Foi descoberto outro dia um pau-brasil que já cá estava meio milênio atrás, mas o que é meio milênio para a erosão que levou à formação duma planície de aluvião com centenas de metros de profundidade, como o Vale do Paraíba? Ou para o choque de plataformas continentais que fez surgir o Himalaia?

Tudo isto, contudo, ainda empalidece e se vê sem sentido algum diante do Eterno. D’Aquele Incriado que criou o Tempo, que criou o espaço, que criou, em suma, os elementos que tornam possível a nossa própria existência. Estamos nalgum ponto no espaço, e avançamos cegamente pelo tempo como uma formiguinha que segue as demais numa fila sem saber para onde vai. Para nós tudo tem um antes e um depois, e tudo tem um onde. Como um peixe que não percebe estar molhado, nós sequer nos damos conta de que todo movimento nosso, toda ação mental, espiritual ou material que encetamos ou padecemos está inserida neste sistema de coordenadas cartesianas do espaço-tempo.

Do primeiro Natal pra cá, contudo, neste piscar de olhos durante os quais meros 2020 anos se passaram, temos como que uma janela aberta pelo Eterno, que adentrou a nossa prisão (ou nosso habitat, como preferir meu solitário leitor) espaço-temporal. Por ela, ou melhor, por Ele e n’Ele Que nasceu em Belém, podemos ver o Eterno. N’Ele tudo o que é passageiro, tudo o que é efêmero como uma borboleta, um homem, uma nação ou uma cordilheira de montanhas pode perceber a própria pequenez. E, ao mesmo tempo, nós homens primeiro e todas as demais criaturas depois podemos perceber, atônitos, a absolutamente imerecida dignidade a que fomos elevados pela Encarnação do Verbo, primeiro, e por Seu Sacrifício, depois.

Nossos pequenos avanços naturais no sentido da eternidade, como a miraculosa beleza do surgimento duma criança que é fruto do amor dum casalzinho que começa a vida e, num piscar de olhos, virá a tornar-se um casal de velhinhos ainda de mãos dadas, ganharam novo sentido. A água com que é batizada a criancinha ganhou novo sentido. As primeiras palavras que balbucia, os primeiros passos que arrisca, tudo isso ganhou novo sentido ao se tornar repetição do que foi feito pelo próprio Criador quando, enlevado pela beleza da figura da mãezinha jovem e seu filhinho, decidiu tomar Ele mesmo parte naquela cena. E cresce a criança em estatura, graça e sabedoria, e num átimo está ela pronta para encantar-se por outra pessoinha do sexo oposto e repetir, mas vivendo como se fosse a primeira vez, o primeiro amor. O mesmo fenômeno pelo qual haviam já passado todos os seus antepassados, cada um deles vivendo seu amor como se fora o primeiro de todos os amores.

E daí podemos ver o mundo, do ponto de vista extremamente privilegiados de pessoas que projetam a família para o futuro gerando descendência e venerando a ascendência ancestral dentro da nova realidade criada pela presença real e constante do Absoluto, do Eterno, no meio do relativíssimo espaço-tempo. Daí podemos perceber que as absurdas razões políticas de Estado que levaram à chacina de tantos jovens inocentes naquela Primeira Guerra Mundial de nada valem diante do Mistério absoluto do Natal. Entendemos as razões dos rapazes que deixaram o fuzil na trincheira e foram cantar com “o inimigo”. Pois, afinal, que inimigo é esse? Que mal lhes teria ele feito?!

Mais ainda: os ingleses que combatiam os alemães eram, eles mesmos, primos distantes dos alemães. Eram, em sua maioria, anglo-saxões, descendentes de gente que nascera séculos antes na Ânglia ou na Saxônia, quando da guerra já províncias da Alemanha unida, e de lá fora para as ilhas que um dia seriam britânicas. As línguas eram semelhantes, os rostos eram semelhantes, e tão semelhantes eram as culturas que lhes era possível cantar, ainda que com letras diferentes, as mesmas cantigas de Natal. Que razão imbecil de Estado seria essa que manda primo contra primo, irmão contra irmão? Que faz com que conaturais do Divino troquem tiros em vez de presentes?!

É isto que nos dá o Natal, e é este o verdadeiro espírito do Natal, que a mercantilização da cultura e a neopaganização tentam transformar numa vaga “boa-intenção para com o próximo”. Esta temos que ter o tempo todo, pela mesma razão da Encarnação do Verbo: daquela hora, 2020 anos atrás, em diante, somos todos irmãos. No Natal, porém, neste tempo que começa esta noite e permanece até a Epifania, temos uma bela dúzia de dias em que somos lembrados da raiz dessas intenções, do amor divino que nos força moralmente a amar o próximo: afinal, ele também é amado por Deus. Somos forçados moralmente a perceber que o Eterno – Que adentrou o Tempo – é muitíssimo maior que aquilo que Ele mesmo criou, adentrou e mantém. Que tudo o que vivemos e fazemos deve ser percebido retamente, ou seja, do ponto de vista da eternidade e não de nossos tacanhos interesses de curto prazo. Afinal, até mesmo o futuro de nossos netos e bisnetos é um interesse de curto prazo, pois muito poucos são os nossos dias neste mundo.

A porta, ainda mais que janela, que nos foi aberta entre o tempo e o espaço, dum lado, e o Eterno e o Infinito, do outro, nos chama a atravessá-la. Ela nos indica o que é real, que é o Eterno, e o que é passageiro, que é todo o resto em nossa vida tão curta. Ao indicar-nos o que é verdadeiramente importante, ela também nos dá o caminho para que atravessemos a porta certa, para que andemos pelo caminho estreito e não pela larga via da facilidade amoral. O caminho foi-nos aberto de lá para cá por Aquele bebezinho cujo nascimento numa estrebaria hoje celebramos. E podemos agora atravessá-lo de cá para lá e, como o Eterno adentrou o tempo e o Infinito adentrou o espaço, deixar para trás o tempo, o espaço e todos os tacanhos interesses financeiros, políticos, nacionais, o que for, e adentrarmos nós também o Eterno que Se nos fez Irmão.

Feliz Natal!