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A Penguim Random House (literalmente “casa aleatória de pinguim”, mas isso é assunto pra outro dia), uma das maiores editoras do mundo, resolveu publicar um livro novo do famoso psicólogo junguiano Jordan Peterson. Pra quê! Os funcionários entraram em pânico, choraram pelos corredores (literalmente), e fizeram uma quizumba gigantesca. A razão do desespero deles é o fato de o Jordan Peterson, segundo eles, ser “um ícone do discurso de ódio e da transfobia, além do fato [sic] de ser um ícone do supremacismo branco”. Só há um probleminha com a caracterização: ela é falsa, totalmente falsa.

Jordan Peterson é um sujeito que virou assunto quando, alguns anos atrás, protestou contra uma lei canadense doida que exige que todos usem pronomes inventados, quando solicitados. Coisa do tipo “não me refiram a mim como ‘ele’; agora eu quero que usem ‘crôico’ no lugar de ‘ele’, ‘crúico’ no lugar de ‘lhe’, e ‘cráico’ no lugar de ‘o’”. Claro que o inventador de pronomes pode inventar um novo por semana, e quem se recuse a manter-se a par do corrente sofre consequências penais. Parece coisa de doido, e é. Mas provavelmente é daí que vem a acusação de “ícone da transfobia”. Essa maluquice de inventar pronomes para substituir os normais faz parte do mesmo complexo sociopolítico da ideologia de gênero. É uma forma de tentar se recusar ao masculino e feminino que nos definem todos, usada como pedra de toque da ortodoxia e obediência aos ditames do politicamente correto.

Peterson é junguiano. Isto significa, na prática, que sua visão da psique humana dá enorme valor a tudo o que é presente em toda pessoa; a inúmeras figuras, historinhas, divisões, etc., que já vêm de fábrica, por assim dizer. E uma destas coisas, claro, é o masculino e o feminino. Assim, exatamente por conhecer a mente humana e, mais, pela escola de psicologia de que faz parte, ele tem uma noção muitíssimo mais clara do masculino e do feminino que a média das pessoas. Para o povo da ideologia de gênero, isto o marca como inimigo e, em reação, para quem combate a ideologia de gênero isto o torna valioso em algumas circunstâncias.

Mas ele não é nem “odiador” de nada – é só um sujeito meio maluquinho, com uma oca indígena na laje de casa e pôsteres soviéticos em todas as paredes, que acaba de conseguir largar um vício em remédio para ansiedade – nem muito menos “um ícone do supremacismo branco”. Tampouco, aliás, é conservador. É um psicólogo junguiano, e quem conhece psicólogos junguianos sabe do que estou falando: eles costumam ser pessoas muito imaginativas e inteligentes, mas difíceis de enfiar em categorias prontas, o que faz com que não se possa considerá-los parte de movimentos de massa. A massa não coleciona pôsteres soviéticos nem constrói ocas na laje.

Num debate com o famoso pensador marxista Slavoj Žižek, aliás, Peterson demonstrou claramente sua ignorância acerca de tudo o que diz respeito não só a conservadorismo, mas a ciência política em geral. Simplesmente não é a dele. E alinhá-lo a coisas absurdas como o “supremacismo branco”, um movimento real, embora minoritário e mais virtual do que realmente atuante, que considera os norte-europeus superiores a nós outros mais moreninhos e pretende criar países apenas para a “raça superior” lá deles, passa de qualquer limite de insensatez. Convenhamos que ter uma oca na laje de casa não é lá muito coisa de viking, afinal.

Mas o que acontece é outra coisa, sobre a qual tenho pensado bastante por estar escrevendo um livro a respeito: a esquerda (que provavelmente inclui quase todo o quadro da editora) e a direita (que inclui, nas margens, os tais supremacistas) americanas têm sérios problemas de construção da masculinidade. Como nós tendemos a importar tudo quanto é imbecilidade dos EUA, bem como o Canadá da editora e do psicólogo, isto acaba, numa certa medida, aparecendo aqui no meio dos mais antenados com as novidades das bolhas políticas virtuais.

Explico: ser homem, amadurecer como ser humano do sexo masculino, não é moleza. É um processo que dura coisa de três décadas, e que pode ter problemas sérios. E estes problemas muitas vezes paralisam o processo em algum momento, impedindo que o rapaz amadureça como homem. Esta é a gênese de inúmeros problemas, que acabam – claro, por sermos animais naturalmente políticos, como ensinou Aristóteles – tendo consequências políticas quando uma certa massa crítica é alcançada. São estas consequências que causaram tanto a fama de Jordan Peterson em meio à direita americana (não apenas entre os racistas nela) quanto o horror do pessoal esquerdista da editora ao seu nome. Em outras palavras: a direita gosta dele e a esquerda o odeia não por ele ter posições políticas claras (pois não as tem), mas por verem refletido nele e nos seus livros (que na verdade são mera autoajuda, sem grande novidades) algo que a direita ama e a esquerda hodierna odeia: uma certa figura paterna.

E aqui largamos Jung e vamos para Freud, seu professor e depois inimigo. A construção da masculinidade, como processo, tem como um de seus elementos principais uma série de percepções, reações e relações a uma figura paterna (que normalmente haveria de ser o pai, mas que pode ser o tio, o avô, ou até o vizinho ou porteiro do prédio). É percebendo o pai como homem – diferente da mãe, tão completamente uma mulher – que começa a se firmar como homem o menininho. Isto se passa primeiro naquela fase em que se está descobrindo que se é alguém pela primeira vez, naquele momento da vida tão importante e tão confuso que depois o esquecemos, até os 3 ou 4 anos de idade. Mais tarde, este processo se repete de outras formas e em outras fases do amadurecimento (que não vale a pena explicar aqui, que coluna de jornal não é tratado de psicanálise!), das quais a mais importante é do tempo imediatamente anterior ao imediatamente posterior à puberdade e à explosão da pulsão sexual.

Ora, a nossa sociedade sofreu, neste último meio século, uma verdadeira explosão social. A família burguesa, que acorrentou a mulher dentro de casa tirando paninhos de móveis por coisa de duzentos anos, tornou-se antes a exceção – e rara exceção! – que a regra.

O problema, contudo, é que este processo de rearranjo social, que ainda está em curso, não levou a outro modelo mais justo. Ao contrário, até: a revolução sexual acabou fazendo da mulher mais comumente objeto sexual que sujeito de suas próprias ações (como aliás já alertara S. Paulo VI); comentei aqui há pouco tempo sobre a celebridade que tristemente declarou que “já de[u] muito por educação”. O que mais há por aí hoje é viúva de homem vivo e filho de pai vivo; os homens perderam o respeito não só à mulher como parceira sexual, mas também pela própria maternidade, e não têm mais pejo algum em abandonar os próprios filhos, no máximo mandando a contribuição financeira mínima que os mantenha fora da cadeia.

O resultado é que já estamos na segunda geração de meninos criados sem uma estrutura que garanta a presença de uma figura paterna, boa ou má. Pode-se argumentar que um mau pai, que bata na mãe, seja ainda pior que nenhuma figura paterna, e não discuto isto. Falo, todavia, de outra coisa: das consequências da ausência total de figura paterna. Por não dispor daquele “espelho” da masculinidade para imitar, competir, amar e tudo o mais que faz parte do processo de formação e amadurecimento do homem como homem, cada rapaz o cria para si mesmo, mas como fantasia. São “pais” fantasmas que, por necessidade, para ocupar aquele buraco enorme (do tamanho da paternidade!) no coração e na psique de cada rapaz, acabam orientando até mesmo as escolhas políticas de cada um.

O “vazamento” da questão da figura paterna fantasma para a política ocorre da seguinte maneira: dependendo da fase em que o rapaz “travou” em seu desenvolvimento emocional, ele tende a construir para si mesmo um fantasma paterno positivo ou negativo. Quem se constrói um “pai mau”, via de regra, tende a valorizar na sociedade os aspectos da política mais alinhados à maternidade: aconchego, proteção, carinho, preservação, etc. Já os que se constroem um “pai bom” tendem a valorizar os aspectos mais ligados à paternidade: força, independência, valor do desafio, etc. É aquela velha história da criança que sobre na árvore, e enquanto a mãe, desesperada, grita que não o faça para que não caia, o pai, orgulhoso, instiga o molequinho a subir até o galho mais alto; a diferença é que isto passa a ser transposto para a política, e a figura preferida (mãe ou pai) passa a ser a expectativa de governo. E, mais ainda, a definição mesma de “justiça”, “ordem social”, etc.

Ora, a política da esquerda preza justamente as características ligadas à maternidade: seguridade social, sistemas de saúde e educação, e por aí vai. Já a da direita preza as da paternidade, do “pai bom” imaginário e exagerado. Contudo, não nos esqueçamos que, afinal, nem para esquerdistas nem para direitistas atuais não houve figura paterna real. Isto permite uma introjeção de valores maternais mais ou menos eficiente, mas os valores paternais serão sempre distorcidos, por imaginários e fantasiosos. O próprio modelo ideal da direita é o daquelas famílias de comercial americano dos anos 1950, sem que se deem conta de que as mesmas crianças daquela época foram as que, ao chegar aos vinte anos de idade, encheram-se de ódio e destruíram tudo aquilo. Tudo é fantasia, e o pai é totalmente ficcional, exagerado e fantástico (no bom e no mau sentido). É por isto que, por exemplo, fazem tanto sucesso hoje os “coaches” que gritam palavrões e demonstram uma agressividade absolutamente gratuita para com tudo e todos, inclusive e especialmente o próprio cliente: o rapaz percebe que a figura paterna deve ter em si uma certa agressividade, mas como não a experimentou tende a adotar como pai substituto figuras de agressividade exagerada. Do mesmo modo, o desrespeito à mulher, a visão pornográfica do sexo e outros horrores hoje tão comuns são em gerais devidos a esta percepção doentia de masculinidade, que é mais uma oposição à maternidade e ao feminino em geral que uma masculinidade real. Daí, evidentemente, a absoluta falta de cavalheirismo dos rapazes, e por aí vai.

Ora, Jordan Peterson, nas suas dicas de autoajuda (e parece que o livro novo é mais do mesmo), pode parecer indicar para o rapaz a importância de atitudes que, na sua construção artificial de um modelo de homem, serão lidas (contra a intenção do autor, aliás) como “masculinas”: levantar os ombros, não se deixar abater, etc. O autor não escreveu um manual de masculinidade para rapazes inseguros, mas é assim que foi lido pela direita e, por isto mesmo, também pela esquerda (que – lembremos – acha “maligna” esta figura paterna). Por isso o próprio Peterson, como aliás muitos outros gurus virtuais da pós-modernidade, passou a ser adotado como “figura paterna” viva substituta por muitos destes rapazes, quando na verdade suas dicas são para homens e mulheres e não pretendem ensinar ninguém a ser homem.

O que tivemos, então, na editora foi simplesmente o choque dos que se construíram um pai-monstro a ser temido e evitado ao ver adentrar no recinto editorial maternal, quentinho, aconchegante (um verdadeiro útero!) a mesmíssima figura aterrorizante. Eles não o conhecem nem querem conhecer, porque os devotos do pai-fantasma-bom, que lhes metem um medo tremendo por sua agressividade desordenada e por sua propensão a eliminar todo traço de feminilidade da organização da sociedade, dizem que ele é bom e o adotam como figura paterna. É a maior recomendação negativa que eles poderiam ter, e por isso, só por isso, choraram tanto, brigaram tanto pelos corredores da editora.

Esta é apenas uma historieta das muitas que podemos perceber claramente nas redes sociais em relação a tantos outros pais substitutos hiperagressivos e “treteiros”. A gênese psicológica de todas elas, todavia, é a mesma. Tristes tempos.